“Tem que ser muito ingênuo para acreditar que o Flávio entregará o poder ao Tarcísio”, diz Joice Hasselmann

Joice Hasselmann alerta para projeto de hegemonia perpétua do clã Bolsonaro


Flávio Bolsonaro e Tarcísio de FreitasCrédito: Vittor Sales/Divulgação Campanha Flávio Bolsonaro

247 – Ao analisar os cenários da sucessão e a disputa pelo comando da direita brasileira, a ex-deputada federal e jornalista Joice Hasselmann traçou, em entrevista à TV 247, um diagnóstico contundente sobre o funcionamento interno da família Bolsonaro. Para a ex-líder do governo, qualquer cálculo político que presuma generosidade ou alternância de poder entre os filhos do ex-presidente e nomes técnicos ou governadores aliados — como Tarcísio de Freitas — ignora a natureza patrimonialista do grupo.

Hasselmann argumenta que a dinâmica do clã não admite concorrência interna e que lideranças populares fora da linhagem consanguínea são vistas estritamente como ferramentas passageiras para alcançar vitórias eleitorais, nunca como herdeiros legítimos de um projeto de poder.
A miragem da sucessão republicana

A ideia de que figuras como o governador de São Paulo seriam ungidas de forma natural em um eventual ciclo de poder capitaneado por Flávio Bolsonaro foi classificada por Joice como ilusória. Segundo ela, as promessas de composição e transição feitas nos bastidores desmoronam assim que a máquina pública e a caneta presidencial entram em jogo.

“Se tem alguém aqui ingênuo o suficiente para achar que o Tarcísio de Freitas seria o sucessor do Flávio, por favor: tem que ser muito ingênuo para acreditar que o Flávio entregará o poder ao Tarcísio. Ninguém que não tenha o sobrenome Bolsonaro será sucessor.”

Para Joice, a hipótese de um mandato transitório sem pretensões de continuidade é um artifício retórico recorrente:

“O pai dele prometeu e enganou também. Eles falam em desapego da reeleição para atrair apoios cautelosos, mas quando sentam na cadeira, a sede de controle assume tudo. É um projeto perpétuo de poder, arriscado e concentrador.”
A dinastia familiar como regra única

De acordo com a ex-parlamentar, a engrenagem bolsonarista foi desenhada para preservar o comando sob tutela dos filhos. Na avaliação de Joice, qualquer plano de longo prazo já prevê a rotação interna entre os próprios irmãos antes de qualquer concessão a quadros externos à família.

“Eles não vão passar a faixa para quem pensa por conta própria. Se o Flávio entra, ele vem para a reeleição. Se não for ele, chama o Eduardo; se não for o Eduardo, depois volta ou aciona outro irmão. O objetivo nunca foi consolidar uma frente ampla da direita, mas sim manter a marca da família como dona exclusiva do espólio eleitoral.”

Segundo a leitura da ex-deputada, a estrutura partidária e a base militante são instrumentalizadas para sabotar previamente qualquer aliado que comece a crescer acima dos membros da família:Uso Instrumental de Aliados: Lideranças com apelo administrativo ou de centro-direita são escaladas para conferir verniz moderado e atrair o mercado e o eleitorado pragmático.
Controle de Espaço Político: Qualquer protagonismo individual que ameace a primazia do clã passa a ser monitorado com desconfiança e gradualmente asfixiado pela comunicação digital da ala radical.
Submissão Obrigatória: Apenas aliados que aceitam subordinação irrestrita e não constroem agenda própria de presidenciáveis conseguem sobreviver politicamente ao lado do grupo.
O custo da capitulação para a direita independente

Joice aponta que nomes como Sergio Moro já ilustraram o limite do pragmatismo ao tentarem negociar espaços de sobrevivência política sob a tutela do clã, acabando subordinados à agenda da família após rompimentos públicos. Ela avalia que o mesmo destino aguarda qualquer líder que confie em acordos de cavalheiros com o grupo.

“A não ser que todos se dobrem, que coloquem o rabinho entre as pernas, finjam que não pensam e apenas cumpram as ordens que vierem, ninguém se sustenta ali sem o sangue da família. Todos os outros são descartáveis quando deixam de servir ao propósito imediato.”

A ex-deputada conclui que o eleitor e as forças institucionais que pretendem construir uma alternativa de centro-direita equilibrada precisam enxergar a linha que separa uma coligação partidária comum de uma estrutura personalista voltada para a autopreservação familiar:

“O bolsonarismo sequestrou a direita brasileira e não vai abrir mão da chave do cofre para nenhum forasteiro, por mais competente ou leal que esse aliado tente parecer.”

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