Campanha do 2º turno é morna, sem debates e com sentimento de ‘já ganhou’

Para quem acompanha uma eleição que chegou a ser marcada por confrontos duros, a calmaria chama a atenção

Os dois disputam o segundo turno | Foto: Reprodução

A eleição ainda não terminou, mas a campanha no Acre parece ter perdido boa parte da temperatura que marcou o primeiro turno. A poucos dias da votação de domingo (25), a disputa entre Mailza Assis (PP) e Alan Rick (Republicanos) segue sem grandes embates públicos, com agendas mais enxutas e uma sensação de que o resultado já estaria encaminhado.

O problema é que eleição não se ganha por impressão, muito menos antes da apuração.

Mailza chegou perto de resolver a disputa ainda no primeiro turno. Com 49,76% dos votos válidos, ficou a uma distância mínima da maioria absoluta necessária para evitar uma nova votação. Alan Rick terminou com 32,27%. Foram quase 77 mil votos de diferença, uma vantagem considerável que ajuda a explicar o ambiente atual da campanha.

O contraste com a primeira etapa da disputa é evidente. Em setembro, a campanha foi marcada por ataques, acusações e episódios que dominaram o debate político no estado. A polêmica em torno do diploma de Mailza e a divulgação do depoimento da ex-companheira de seu marido entraram na agenda eleitoral. Do lado de Alan, o depoimento de um funcionário da Latam também ganhou repercussão e virou combustível para o confronto entre as candidaturas.

Agora, o clima é outro. A disputa não desapareceu, mas perdeu intensidade. As agendas públicas dos dois candidatos parecem mais restritas, sem a mesma circulação pelo estado e sem grandes acontecimentos capazes de pautar o noticiário diariamente.

Para quem acompanha uma eleição que chegou a ser marcada por confrontos duros, a calmaria chama a atenção.

Um dos sinais mais claros dessa mudança está na ausência de Mailza nos debates. A candidata não participou dos encontros promovidos pela TV Gazeta no primeiro turno e também deixou de comparecer ao debate previsto para o segundo.

A emissora informou que recebeu a comunicação de ausência por conflito de agenda e transformou o programa em uma entrevista com Alan Rick, que havia confirmado presença.

A decisão tem consequência política. Em uma disputa de segundo turno, quando restam apenas dois candidatos, o debate é uma das poucas oportunidades para que o eleitor compare diretamente propostas, respostas e capacidade de argumentação. Sem o confronto, a campanha perde um espaço importante de exposição pública e de cobrança dos candidatos.

Para quem está na frente, evitar esse tipo de ambiente pode parecer menos arriscado do que se expor a perguntas inesperadas ou a ataques do adversário. Mas essa leitura não deve ser confundida com uma confirmação de estratégia deliberada: oficialmente, a justificativa apresentada pela campanha foi o conflito de agenda.

O sentimento de “já ganhou”, no entanto, está presente na percepção de parte do ambiente político. A vantagem do primeiro turno, a estrutura de apoio construída por Mailza e a movimentação de lideranças em torno de sua candidatura ajudam a alimentar a impressão de que o desfecho estaria praticamente definido.

Mas uma eleição não é uma extensão automática do resultado anterior.
Alan Rick tem uma missão difícil: ampliar sua votação, convencer eleitores que escolheram outros candidatos no primeiro turno e mobilizar quem ainda não decidiu se voltará às urnas. A distância inicial é grande, e o tempo para mudar o cenário é curto. Ainda assim, a campanha continua aberta até que os votos sejam contados.

Mailza, por sua vez, precisa transformar a vantagem em votos suficientes para confirmar a vitória. Liderar a primeira votação não significa ter o segundo turno garantido. A governadora disputa seu primeiro mandato direto e ainda depende da decisão dos eleitores no próximo domingo.

O risco de uma campanha morna é produzir acomodação dos dois lados. Para quem lidera, a confiança excessiva pode diminuir a mobilização. Para quem está atrás, a dificuldade de reverter a diferença pode enfraquecer o ritmo da campanha. E, para o eleitor, a falta de confronto e de debate pode tornar menos visíveis as diferenças entre os projetos apresentados.

Há também uma questão de interesse público. O segundo turno não é apenas uma formalidade depois de uma primeira votação expressiva. É uma nova etapa, com oportunidade para que os candidatos expliquem prioridades, respondam a questionamentos e apresentem ao eleitor as razões pelas quais consideram que devem governar o Acre pelos próximos quatro anos.

Até aqui, a campanha parece mais preocupada em administrar o cenário deixado pelo primeiro turno do que em produzir um novo momento de confronto político. Resta saber se essa calmaria vai permanecer até domingo ou se a reta final ainda reserva alguma mudança de ritmo.

A impressão de que Mailza já está com a vitória nas mãos pode até encontrar respaldo na diferença registrada nas urnas. Mas transformar vantagem em certeza é um erro recorrente na política.

O jogo só termina quando as urnas fecham. Até lá, não existe “já ganhou”. Existe campanha, disputa e eleitor.
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