Relatório da PF, que investiga Flávio por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, revela que o fundo Havengate ficou anos inativo antes de receber US$ 12,3 milhões supostamente ligados ao filme sobre Bolsonaro

O senador Flávio Bolsonaro durante agenda na Fíes - Foto: Aloisio Mauricio /Fotoarena/Folhapress
Aqueda do sigilo de documentos da investigação sobre o caso Banco Master revelou novos detalhes da estrutura financeira montada para o financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, e colocou em xeque a versão apresentada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre a operação nos Estados Unidos.
O relatório da Polícia Federal aponta que o Havengate Development Fund LP, fundo ligado a Eduardo Bolsonaro e utilizado para receber recursos supostamente ligados ao filme, havia sido criado originalmente para um empreendimento imobiliário no Texas, mas permaneceu sem atividade operacional relevante por quase quatro anos antes de voltar a movimentar milhões de dólares.
Segundo os investigadores, a reativação de uma estrutura criada para outra finalidade e sem operação imobiliária ativa como veículo de remessas internacionais destinadas a uma produção cinematográfica é uma das principais circunstâncias que justificam o aprofundamento das apurações.
Entre fevereiro e setembro de 2025, o Havengate recebeu US$ 12,3 milhões em transferências relacionadas ao projeto. A primeira remessa identificada pela PF foi de US$ 2 milhões, enviada pela empresa Entre Investimentos.
A investigação busca esclarecer a origem dos recursos, a forma como foram movimentados e se a estrutura utilizada tinha compatibilidade com a finalidade declarada.
Fundo imobiliário inativo virou peça central da investigação
O Havengate Development Fund LP foi criado em 2020 nos Estados Unidos com objetivo ligado a um empreendimento imobiliário no Texas. Segundo a PF, porém, o projeto não avançou e o fundo permaneceu “operacionalmente inerte por quase quatro anos”.
A movimentação só foi retomada em 2025, justamente no período em que começaram os repasses vinculados ao financiamento de Dark Horse.
No relatório, os investigadores afirmam que:o fundo tinha origem vinculada ao setor imobiliário;
permaneceu sem atividade durante anos;
passou a receber valores milionários destinados a uma produção cinematográfica;
as remessas ocorreram por meio de uma estrutura internacional que agora é alvo de apuração.
Para a Polícia Federal, a mudança de finalidade do veículo financeiro é um dos pontos que precisam ser esclarecidos.
O relatório afirma que a “reativação de um fundo originalmente criado para fins imobiliários, dormente por anos, sem lastro em qualquer operação imobiliária ativa, como veículo de remessas internacionais vinculadas a uma produção cinematográfica” representa uma circunstância que reforça a necessidade de investigação.
Eduardo Bolsonaro aparece nas orientações sobre os recursos nos EUA
Os documentos tornados públicos também revelam o papel de Eduardo Bolsonaro na organização da movimentação dos recursos nos Estados Unidos.
Segundo a investigação, o ex-deputado orientou a forma como o dinheiro deveria circular no exterior. Em uma mensagem encaminhada ao publicitário Thiago Miranda, apontado como interlocutor entre Eduardo e o banqueiro Daniel Vorcaro, ele afirmou:
“O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático.”
Ainda segundo os documentos, Eduardo indicou Altieris Santana para reuniões presenciais relacionadas à administração dos valores.
A Procuradoria-Geral da República avaliou que a preocupação demonstrada nas mensagens sobre o trajeto dos recursos é um elemento que precisa ser analisado dentro do conjunto da investigação.
PF aponta valores milionários e discrepância no orçamento do filme
Além da estrutura envolvendo o Havengate, a Polícia Federal analisou os valores negociados para a realização de Dark Horse.
Segundo os investigadores, o acordo firmado com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, previa um aporte total de R$ 134 milhões. Desse valor, R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos.
A PF apontou uma “elevada discrepância desse valor em relação aos custos normalmente observados em obras brasileiras de semelhante porte”.
Mensagens apreendidas indicam ainda que Flávio Bolsonaro acompanhava diretamente os pagamentos e cobrava Vorcaro sobre os repasses.
Em 16 de setembro de 2025, há registro de uma ligação entre os dois, mesma data em que os investigadores identificaram uma última remessa no valor de US$ 1,6 milhão.
A apuração busca verificar se os aportes ocorreram dentro de uma relação comercial regular ou se houve eventual vantagem relacionada ao cargo público exercido pelo senador.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades e afirma que os recursos tinham como finalidade exclusiva a produção do filme.
Queda do sigilo ocorreu em meio à crise no Supremo
A divulgação dos documentos ocorreu após uma disputa institucional no Supremo Tribunal Federal envolvendo o sigilo das investigações do caso Banco Master.
Inicialmente, o ministro André Mendonça autorizou a abertura de parte dos procedimentos, mas manteve sob sigilo outros documentos, entre eles materiais relacionados ao financiamento de Dark Horse.
A decisão provocou reação de ministros da Corte. Alexandre de Moraes afirmou que houve uma liberação “seletiva” das informações e questionou a ausência de documentos considerados relevantes.
Segundo Moraes, cerca de 180 arquivos e documentos digitais teriam ficado fora do material inicialmente disponibilizado aos gabinetes.
O ministro Cristiano Zanin também defendeu acesso integral aos elementos da investigação.
Após a pressão, Mendonça liberou, na noite desta sexta-feira (11), novos procedimentos relacionados ao caso, incluindo aqueles envolvendo o financiamento do filme.
Ao criticar a condução do levantamento do sigilo, Moraes afirmou que o colega, “diretamente interessado no julgamento”, teria escolhido “subjetivamente o levantamento do sigilo, tornando público somente o que entendeu conveniente”.
Com a abertura dos documentos, o foco da investigação passou a incluir não apenas os valores destinados ao Dark Horse, mas também a estrutura criada nos Estados Unidos para movimentar os recursos — especialmente o papel do Havengate, que se tornou um dos principais pontos de questionamento da Polícia Federal.