Gilmar Mendes defende Gonet, compara atuação de Mendonça à Lava Jato e denuncia uso político do caso Master


Ministro afirma que exposição do procurador-geral foi injustificada e compara atuação do relator do caso Master a métodos de Moro e Dallagnol na Lava Jato

Gilmar MendesCrédito: Alejandro Zambrana/STF

247 – O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), fez nesta quinta-feira (17) novas críticas à atuação do colega André Mendonça na condução do caso Master e saiu em defesa do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em publicação no X, o decano acusou o relator de promover uma exposição injustificada do chefe da Procuradoria-Geral da República e afirmou que sua conduta teve finalidade política.

A manifestação ocorre dois dias depois da turbulenta sessão de terça-feira (15), quando o plenário do STF discutiu os desdobramentos de um relatório da Polícia Federal com mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O material chegou a Mendonça no âmbito das investigações sobre o Banco Master e continha referências a autoridades, entre elas Gonet e o ministro Alexandre de Moraes.

Gilmar afirmou que Gonet teve sua reputação atingida depois que conversas nas quais seu nome aparecia foram tornadas públicas, embora, segundo o ministro, nenhum ato ilícito tenha sido identificado contra o procurador-geral.

“Paulo Gonet, Procurador-Geral da República, tem reputação ilibada e vida pública de lisura insuspeita. Isso nunca foi objeto de disputa: é reconhecido em todos os espectros, por quem concorda e por quem discorda dele. Mesmo assim, teve a honra injustamente manchada pelo levantamento do sigilo de conversas que nada de ilícito retratavam”, escreveu.

Segundo Gilmar, a posterior manifestação de Mendonça no plenário reconhecendo a inexistência de irregularidade atribuída diretamente a Gonet não seria suficiente para reparar os danos provocados pela divulgação.

“E, naquele exato momento, o estrago à reputação já estava feito. Ninguém desfaz manchete com reparo tardio em plenário”, afirmou.

Durante a sessão de terça-feira, Gonet negou manter relação de proximidade com Vorcaro e afirmou que encontrou o ex-banqueiro uma única vez, em uma conversa que classificou como “breve e banal”. As mensagens recuperadas pela PF mencionavam tentativas de aproximação entre Vorcaro e o procurador-geral. Até o momento, segundo a Folha de S.Paulo, não foram apresentadas provas de irregularidades praticadas por Gonet.
Gilmar volta a falar em uso político do caso

Na publicação desta quinta-feira, Gilmar também retomou uma acusação feita por ele durante o julgamento: a de que a condução do processo por Mendonça teria sido contaminada pelo calendário eleitoral.

O decano citou um vídeo divulgado por Mendonça no início de setembro, no qual o ministro agradeceu mensagens de apoio e orações recebidas durante a crise no Supremo.

“A intenção de lucrar politicamente com o episódio ficou escancarada quando o relator fez publicar vídeo nas redes sociais agradecendo o apoio popular. Apoio a quê, exatamente? A um ato que ele mesmo admitiu não ter fundamento contra a pessoa exposta? Quem age assim não é magistrado imparcial: é boneco de campanha, um pixuleco eleitoral”, escreveu Gilmar.

O vídeo foi divulgado em 4 de setembro, três dias antes dos atos de 7 de Setembro. Mendonça dirigiu a gravação a integrantes da comunidade cristã e agradeceu as mensagens de oração e solidariedade recebidas. O conteúdo também foi publicado nas redes sociais pela deputada Bia Kicis (PL-DF).

Dois dias depois, manifestações de apoiadores de Flávio Bolsonaro realizadas em Brasília exibiram mensagens favoráveis a Mendonça e críticas a Moraes e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mendonça, por sua vez, vem defendendo a legalidade de sua atuação no caso e negando que tenha conduzido as apurações com objetivos políticos. Durante o embate no STF, ele reagiu às acusações feitas pelos colegas e pediu respeito ao ser confrontado por Gilmar.
Sigilo foi derrubado no início de setembro

O conflito tem origem em um relatório produzido pela Polícia Federal a partir da análise do celular de Vorcaro, investigado na Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master.

Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo de diálogos que continham referências a Moraes e Gonet e defendeu que o conteúdo fosse analisado pelo plenário do Supremo.

Naquele mesmo dia, Gonet pediu a anulação da investigação relativa às conversas atribuídas a Moraes e Vorcaro. Para o procurador-geral, Mendonça teria ultrapassado os limites de sua competência ao determinar o aprofundamento das apurações sem provocação do Ministério Público ou iniciativa da autoridade policial.

A disputa culminou na sessão extraordinária de terça-feira, convocada pelo presidente do STF, Edson Fachin, para discutir os desdobramentos das mensagens. O encontro foi marcado por confrontos entre Mendonça, Moraes e Gilmar e terminou sem definição depois que Flávio Dino pediu vista.

Durante o julgamento, Gilmar já havia acusado Mendonça de imprimir um “viés político-eleitoral” ao processo e questionado a proximidade entre a divulgação do material e as manifestações de 7 de Setembro.

“O interesse é evidente. Acachapante. Extravagante. Evidente que se trata de um ‘pixuleco’, de um boneco eleitoral. É disso que nós estamos falando”, afirmou naquela ocasião.
Comparação com a Lava Jato

Na nova manifestação, Gilmar comparou a condução do episódio às práticas que atribui à Operação Lava Jato. O ministro mencionou nominalmente o ex-juiz Sergio Moro e o ex-procurador Deltan Dallagnol e os acusou de usar vazamentos seletivos para provocar repercussão pública antes da conclusão dos processos.

“Já vimos esse filme. Na Lava Jato, Deltan Dallagnol e Sergio Moro transformaram vazamento seletivo em método. A ideia era sempre criar o fato consumado antes da ação penal, colher os dividendos políticos e deixar a defesa correndo atrás de um julgamento que a opinião pública já havia feito”, escreveu.

Gilmar ainda relacionou a divulgação dos dados às eleições de 2026. A acusação de motivação eleitoral é contestada por Mendonça, que sustenta ter atuado dentro de suas atribuições judiciais.

“E, como na Lava Jato, a hora nunca é ao acaso. Lá, sigilos caíam a poucas semanas das eleições. Aqui, o levantamento apareceu às vésperas do 7 de Setembro, para inflar as ruas, arrancar dividendos políticos, sujar reputações e intimidar quem se opõe a esse método”, afirmou o decano.

Ao encerrar a publicação, Gilmar reforçou a defesa do procurador-geral.

“Instituição séria respeita o devido processo desde o primeiro ato.”

“A Paulo Gonet, minha integral solidariedade. O Brasil e as instituições são devedores da coragem, da seriedade e da correção de homens como ele”, concluiu.

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