Presidente inicia campanha no berço de sua trajetória política e projeta novo ciclo de desenvolvimento, emprego e educação


Lula voltou à histórica Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, para lançar sua candidatura à reeleição. Em busca do quarto mandato, prometeu apresentar seu novo programa de governo em até 15 diasCrédito: Ricardo Stuckert
247 – De volta ao cenário que marcou sua ascensão como líder sindical e abriu caminho para sua trajetória política, Luiz Inácio Lula da Silva lançou neste domingo (16), na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), sua candidatura à reeleição. Na arrancada em busca de um quarto mandato na Presidência, Lula prometeu aprofundar investimentos em educação, emprego e industrialização e apresentou como horizonte transformar o Brasil em uma potência capaz de produzir tecnologia e agregar valor às próprias riquezas.
Durante o discurso de lançamento da candidatura, Lula afirmou que o país ainda não alcançou todo o seu potencial econômico e social. “Esse país está devendo a si mesmo se transformar numa grande nação. E nós vamos fazer desse país uma grande nação”, declarou. O presidente anunciou ainda que, dentro de dez a 15 dias, apresentará com o vice-presidente Geraldo Alckmin o programa para um eventual novo governo.
“Eu, dentro de 10 ou 15 dias, eu e o Alckmin, vamos apresentar a nossa proposta de governo para o próximo mandato”, afirmou Lula.
O presidente disse que o documento será preparado para detalhar as propostas que pretende levar ao eleitorado. Ao mesmo tempo, convocou a militância a comparar os resultados de seu governo com os da administração anterior, especialmente em áreas como emprego, inflação, crescimento econômico e políticas sociais.
Educação no centro do projeto para o quarto mandato
Ao antecipar prioridades para uma nova gestão, Lula colocou a formação dos jovens entre os principais desafios que pretende enfrentar.
“Eu, num quarto mandato, eu quero acabar com alguns dilemas desse país. Um deles é a formação do nosso povo. Eu quero meninas e meninos desse país bem formados, bem estruturados, não apenas para trabalhar no mercado de trabalho”, disse.
O presidente associou educação à capacidade de o Brasil avançar tecnologicamente e ocupar posições de maior valor nas cadeias produtivas. No discurso, defendeu que o país forme profissionais capazes de trabalhar com minerais críticos e terras raras e transforme essas matérias-primas em produtos industriais.
“A gente não quer exportar o mineral bruto para depois comprar coisas prontas dele. Nós queremos extrair aqui, transformar aqui, industrializar aqui, produzir aqui, gerar emprego aqui e gerar riqueza”, afirmou.
Lula citou celulares, chips e baterias elétricas entre os produtos que podem ser fabricados a partir desses recursos e rejeitou entregar a exploração das riquezas minerais brasileiras às grandes potências.
A estratégia foi relacionada à Nova Indústria Brasil, política conduzida pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, chefiado por Alckmin. Segundo os números apresentados pelo presidente, a iniciativa mobilizou investimentos próximos de R$ 800 bilhões.
Lula reivindica expansão do ensino
Para sustentar a educação como um dos pilares de sua proposta, Lula comparou o acesso ao ensino superior no início de seu primeiro governo com o cenário atual.
“Quando eu assumi a presidência em 2003, tinha apenas 5 milhões de brasileiros no mercado de trabalho com diploma universitário. Hoje tem 25 milhões com diploma universitário. Isso é pensar no futuro”, declarou.
O presidente também reivindicou a expansão da rede federal de educação profissional realizada durante os governos do PT. Segundo Lula, ele e Dilma Rousseff construíram 606 institutos federais em 16 anos, e o atual governo pretende chegar ao fim do mandato com 800 unidades.
“Isso é pensar no futuro. Porque o futuro significa investir em educação. O futuro significa formar os nossos jovens”, disse.
Lula também defendeu escolas de tempo integral como política voltada simultaneamente à formação das crianças e à rotina das famílias. Segundo ele, a ampliação da jornada permite que pais e mães trabalhem enquanto os filhos permanecem na escola e tenham acesso a atividades como arte, dança, música e educação ambiental.
Emprego vira argumento para a reeleição
A geração de postos de trabalho também ocupou espaço central no discurso. Lula afirmou que seu governo criou 10,1 milhões de empregos formais nos últimos três anos e meio e contrapôs o desempenho aos números que atribuiu à administração anterior.
O presidente mencionou ainda a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil, o apoio de crédito a 174 mil indústrias e políticas destinadas a impedir que estudantes abandonem o ensino médio.
Segundo Lula, 7,2 milhões de jovens permanecem estudando com o auxílio de bolsas concedidas pelo governo.
Na parte final do discurso, ele apresentou números de inflação, desemprego, crescimento econômico e situação fiscal e pediu aos militantes que utilizem comparações durante a campanha.
“Então eu quero que vocês tenham um número para comparar”, afirmou.
Retorno ao palco das greves
A escolha da Vila Euclides para a arrancada eleitoral também permitiu que Lula vinculasse a busca pelo quarto mandato às origens de sua vida pública.
O presidente dedicou parte significativa do discurso às greves dos metalúrgicos do ABC de 1979 e 1980. Lula recordou particularmente uma assembleia de 1979, quando considerou satisfatória uma proposta apresentada pelos empresários, mas encontrou resistência entre trabalhadores mobilizados havia 15 dias.
Temendo perder uma votação direta sobre o acordo, Lula contou que pediu um voto de confiança para que a categoria voltasse ao trabalho enquanto ele continuaria negociando.
“Os trabalhadores, por unanimidade, aprovaram a minha proposta de voltar a trabalhar e eu continuar negociando. Mas todos os trabalhadores saíram daqui putos da vida comigo, achando que eu tinha traído eles”, relatou.
Segundo Lula, foram necessários meses para reconstruir a confiança da categoria. Em 1980, uma nova paralisação durou 41 dias e resultou em milhares de demissões. Lula foi preso em 17 de abril de 1980 e permaneceu 31 dias na cadeia.
“Companheiros, isso foi a mais importante lição política que eu tive na minha vida”, afirmou.
Das greves à criação do PT
Lula também usou a memória do ABC para explicar sua entrada na política institucional. O presidente contou que, depois da greve de 1978, era contrário à criação de um partido e rejeitava a atividade política.
A avaliação mudou quando passou a considerar contraditório que trabalhadores enfrentassem empresários nas fábricas e, nas eleições, escolhessem representantes dos interesses patronais.
“Porque sabem qual é o defeito de quem não gosta de política? É que o país é governado por quem gosta”, declarou.
Foi nesse processo que Lula passou a defender a criação de um partido ligado aos trabalhadores, movimento que culminaria na fundação do PT em 1980.
Quase meio século depois das primeiras grandes mobilizações sindicais no ABC, o presidente voltou ao mesmo espaço para apresentar a disputa eleitoral como uma nova etapa da trajetória iniciada nas fábricas da região.
Lula recupera programas de seus governos
Ao defender sua concepção de desenvolvimento, Lula também citou políticas e obras implementadas desde sua primeira passagem pelo Planalto. Entre elas estão o Luz para Todos e a transposição do rio São Francisco.
O presidente relacionou a transposição à própria experiência como nordestino que migrou para São Paulo e recordou as dificuldades enfrentadas por famílias submetidas à falta de água.
“É esse nordestino que sabe qual é o valor de levar água pra 12 milhões e meio de pessoas”, afirmou.
Lula disse ainda que pretende inaugurar neste ano uma etapa destinada a garantir o abastecimento de Fortaleza. Para o presidente, obras de segurança hídrica, expansão educacional e infraestrutura representam políticas capazes de produzir efeitos duradouros.
Campanha mira também Congresso e São Paulo
O lançamento da candidatura presidencial terminou com um chamado à eleição de aliados. Lula pediu votos para Fernando Haddad ao governo de São Paulo e para Marina Silva e Simone Tebet nas duas vagas ao Senado em disputa no estado.
Também pediu apoio aos candidatos da coalizão à Câmara dos Deputados. O presidente argumentou que uma maioria no Congresso será fundamental para implementar o programa de um eventual quarto mandato.
“Porque a gente precisa ganhar as eleições e eleger maioria no Congresso Nacional, para que a gente possa fazer tudo o que a gente tem que fazer nesse país”, afirmou.
Ao voltar à Vila Euclides para arrancar em busca do tetra presidencial, Lula procurou unir passado e futuro em uma mesma narrativa eleitoral: das assembleias dos metalúrgicos que projetaram sua liderança nacional à promessa de um país mais industrializado, tecnologicamente desenvolvido e apoiado na expansão da educação.