Analistas apontam que, ao contrário do Brasil, governo de Javier Milei não exerce a soberania

Milei entrega recursos hídricos da ArgentinaCrédito: Brasil 247 / Dall-E
247 – Governada pela extrema-direita de Javier Milei, a Argentina enfrenta uma escalada da pressão dos Estados Unidos para limitar investimentos e a presença tecnológica da China em setores estratégicos do país, como telecomunicações, inteligência artificial, infraestrutura e energia. O governo argentino, porém, permanece em silêncio diante das investidas de Washington, numa postura criticada por especialistas como expressão da perda de autonomia na condução da política externa.
Segundo reportagem do Página/12, publicada nesta sexta-feira (14), a embaixada dos Estados Unidos pressionou publicamente o governo Milei a evitar a participação da chinesa Huawei em projetos de fibra óptica, data centers e infraestrutura na região de Vaca Muerta. A ofensiva ocorre justamente sobre áreas capazes de atrair investimentos, ampliar a infraestrutura tecnológica e contribuir para a recuperação econômica argentina.
O embaixador norte-americano em Buenos Aires, Peter Lamelas, elevou o tom durante evento organizado pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos, a AmCham. O diplomata acusou a Huawei de espionagem em favor de Pequim e indicou que o desenvolvimento energético e tecnológico argentino deveria privilegiar empresas dos Estados Unidos. O governo Milei não respondeu publicamente às declarações.
Ex-embaixador alerta para submissão a interesses estrangeiros
O ex-embaixador argentino na China Sabino Vaca Narvaja advertiu que a Argentina corre o risco de importar para seu território uma disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, comprometendo seus próprios interesses nacionais.
“Começamos com declarações, depois apareceram advertências sobre vistos e agora a Huawei é vinculada aos investimentos em Vaca Muerta. Amanhã, as condicionalidades podem se estender a 5G, mineração, energia, infraestrutura, portos ou financiamento”, afirmou Vaca Narvaja ao Página/12.
O ex-diplomata destacou que Washington e Pequim, apesar de competirem globalmente, mantêm relações econômicas profundas e negociam sempre que seus interesses assim exigem.
“Não podemos ser mais antichineses que os Estados Unidos enquanto Washington negocia com Pequim: a Argentina não deve comprar rivalidades alheias”, advertiu.
A avaliação coloca no centro do debate uma questão fundamental para o futuro argentino: se Buenos Aires pretende formular uma estratégia nacional própria ou simplesmente acompanhar o alinhamento geopolítico definido pelo governo Donald Trump.
Pressão americana chega a projetos de fibra óptica e inteligência artificial
As pressões norte-americanas já alcançaram projetos concretos. Dirigentes da Cooperativa Provincial de Serviços Públicos e Comunitários de Neuquén (CALF) denunciaram no Congresso argentino que diplomatas dos Estados Unidos teriam condicionado diretamente a entidade a abandonar acordos com a Huawei.
Os projetos incluem uma rede de fibra óptica na região de Vaca Muerta e a instalação de um data center regional de inteligência artificial, iniciativas inseridas diretamente na disputa tecnológica e energética entre Washington e Pequim.
Lamelas justificou a ofensiva afirmando que empresas chinesas representariam riscos à segurança dos dados. A Huawei rejeitou as acusações e ressaltou sua trajetória de 25 anos na Argentina.
“Diante de acusações sem fundamento, nossa resposta é nossa história: uma companhia propriedade de seus próprios empregados, com 25 anos na Argentina acompanhando a conectividade e a transformação digital do país, suas indústrias e sua sociedade”, afirmou a empresa.
Silêncio de Milei coloca soberania argentina em questão
Para Vaca Narvaja, mais grave do que a defesa explícita dos interesses norte-americanos pelo embaixador dos Estados Unidos é a ausência de uma reação do próprio governo argentino.
“Esse silêncio talvez seja o mais grave. Lamelas representa os Estados Unidos e defende seus interesses; isso é esperado. O problema é quem está defendendo os interesses argentinos”, afirmou.
Segundo ele, caberia à chancelaria argentina estabelecer claramente que decisões envolvendo infraestrutura, tecnologia, energia e relações internacionais pertencem exclusivamente à Argentina.
“Quando um embaixador estrangeiro pretende definir nossa segurança nacional e o governo se cala, o silêncio deixa de ser neutro e começa a parecer consentimento”, disse Vaca Narvaja.
Representantes da CALF apresentaram argumento semelhante no Congresso. Sergio Fernández Novoa, gerente de tecnologia da cooperativa, criticou diretamente a interferência diplomática.
“Não está certo que uma embaixada estrangeira entre em contato com uma cooperativa e diga o que ela deve fazer. A alegação de que estão em risco a segurança nacional dos Estados Unidos e a segurança argentina é um eufemismo que esconde a verdadeira pretensão, que é eliminar a concorrência tecnológica das empresas norte-americanas”, afirmou.
Alinhamento com Trump restringe autonomia argentina
Na avaliação de Vaca Narvaja, o alinhamento automático do governo Milei com Washington reduz a capacidade argentina de conduzir uma política externa baseada em seus próprios interesses econômicos.
“Os limites que não são estabelecidos acabam sendo deslocados”, afirmou. Segundo ele, a postura do governo argentino “reduz nossa autonomia e, ao mesmo tempo, deteriora os vínculos com Brasil e China, dois de nossos principais parceiros econômicos e países com os quais temos importantes complementaridades”.
A pressão também envolve Vaca Muerta, uma das maiores reservas de hidrocarbonetos não convencionais do mundo. Lamelas vinculou diretamente a oposição à tecnologia chinesa à possibilidade de novos investimentos norte-americanos no setor e afirmou que acompanha de perto os projetos desenvolvidos na região.
A embaixada chinesa reagiu às declarações do diplomata e classificou as acusações contra a Huawei como uma “calúnia sem nenhum fundamento”. Pequim também acusou Washington de ampliar artificialmente o conceito de segurança nacional para gerar temor no mercado e bloquear a concorrência.
Necessidades econômicas obrigaram Milei a manter swap com China
A própria dependência financeira argentina evidencia as contradições da política externa de Milei. Durante sua ascensão política, o presidente argentino atacou a China e chegou a afirmar que não negociaria com governos comunistas. Uma vez no poder, entretanto, precisou preservar o swap cambial com o Banco Popular da China.
Para Vaca Narvaja, o episódio demonstra os limites de uma política externa orientada por critérios ideológicos quando confrontada pelas necessidades concretas da economia.
“Milei prometeu dolarizar a Argentina e terminou precisando renovar um swap em renminbi: a China manteve sua estratégia; quem teve que mudar foi Milei”, afirmou.
O ex-embaixador sustenta que a questão fundamental não é simplesmente definir o que a China deseja da Argentina, mas estabelecer qual projeto de desenvolvimento a Argentina pretende construir em sua relação com Pequim.
Sem uma estratégia nacional, advertiu, o país pode ficar limitado à exportação de alimentos, energia e minerais estratégicos e à importação de produtos industrializados e tecnologia. Ao mesmo tempo, o alinhamento com Washington pode bloquear justamente as dimensões mais transformadoras da cooperação chinesa: infraestrutura, investimento produtivo, ciência, tecnologia e transferência de conhecimento.
Brasil aparece como contraponto à política de Milei
Vaca Narvaja apontou o Brasil como exemplo de uma estratégia diferente na relação com a China. Enquanto a Argentina de Milei adota um alinhamento preferencial com os Estados Unidos, o Brasil combina relações políticas de alto nível com Pequim e a defesa de objetivos industriais e tecnológicos próprios.
“Brasil mostra outro caminho: combina uma relação política de alto nível com a China com uma estratégia industrial e tecnológica própria, e isso lhe permite buscar investimentos produtivos, associações industriais e cooperação em setores estratégicos como o espacial, nuclear, inteligência artificial e computação quântica”, afirmou.
O contraste, segundo o ex-embaixador, está na capacidade de formular um projeto nacional diante da disputa entre as grandes potências.
“China tem paciência estratégica; Brasil tem estratégia nacional. O problema argentino é que hoje nos falta a segunda”, concluiu.