Tião Viana faz balanço crítico da política acreana, defende legado da Frente Popular e aponta educação, saúde e industrialização como caminhos para o Estado

 


O ex-governador e ex-senador Tião Viana participou, nesta quarta-feira, 29 de julho, de uma edição especial do Podcast Encontro Marcado, apresentado pelo jornalista Raimundo Accioly. Em uma conversa extensa, o médico falou sobre seu afastamento das disputas eleitorais, a entrada do filho Virgílio Viana na política, o legado dos governos da Frente Popular, a situação atual do Acre, a pandemia, o negacionismo científico, a influência da religião no debate público e o cenário eleitoral.

A entrevista foi marcada por avaliações duras sobre o atual ciclo político do Estado. Ao mesmo tempo, Tião Viana procurou defender os resultados de sua gestão e reconhecer que os governos da Frente Popular não conseguiram superar completamente a concentração de renda e a desigualdade social no Acre.

Afastamento eleitoral e apoio à pré-candidatura do filho

Tião Viana começou explicando que decidiu encerrar sua trajetória eleitoral depois de aproximadamente duas décadas de mandatos. Segundo ele, ainda durante o segundo mandato como governador, já havia decidido não disputar as eleições de 2018, por considerar que sua contribuição institucional estava cumprida e que era necessário abrir espaço para uma nova geração.

O ex-governador afirmou que não acredita em uma espécie de “capitania hereditária” na política. No entanto, defendeu como natural a decisão do filho, o advogado Virgílio Viana, de apresentar seu nome como pré-candidato a deputado federal.

Tião contou que, inicialmente, ele, a esposa e as filhas foram contrários à entrada do jovem na política. O argumento da família era que Virgílio possuía uma carreira jurídica promissora e poderia contribuir com o Acre de outras maneiras. A resistência teria sido superada quando o filho afirmou que pessoas com bons propósitos também precisavam ocupar o Congresso Nacional.

A declaração revela uma tensão inevitável. De um lado, Tião rejeita a ideia de transmissão familiar do poder. De outro, reconhece que a experiência política dentro de casa influenciou diretamente a escolha do filho. Cabe ao eleitor avaliar se a candidatura representa efetivamente renovação ou continuidade de um grupo tradicional da política acreana.

Sete anos e meio em silêncio

Ao fazer uma avaliação do período posterior à derrota da Frente Popular, em 2018, Tião Viana afirmou que permaneceu cerca de sete anos e meio sem interferir publicamente no debate político estadual.

Disse que respeitou o resultado das urnas e que não considerava adequado assumir o papel de oposição permanente ou comentar cada decisão do governo que sucedeu seu grupo. Agora, depois de concluído o mandato do ex-governador Gladson Cameli e iniciado um novo período administrativo, disse sentir-se mais à vontade para fazer avaliações públicas.

Na entrevista, Tião sustentou que a Frente Popular deixou uma marca de “trabalho, honradez e dedicação”. Essa é, naturalmente, a leitura do próprio ex-governador. Uma análise equilibrada exige observar tanto as obras e programas citados por ele quanto problemas fiscais, administrativos e sociais que permaneceram depois de duas décadas de domínio do mesmo grupo político.

BR-364 e integração do Acre

Entre os principais feitos reivindicados, Tião destacou a integração da BR-364, especialmente no trecho entre Manoel Urbano, Feijó e Cruzeiro do Sul. Relatou que, antes das obras, encontrou trechos praticamente intransitáveis e afirmou que, durante vários anos, a rodovia permitiu a viagem entre Cruzeiro do Sul e Rio Branco em condições muito melhores.

Ele atribuiu a posterior deterioração da estrada às mudanças ocorridas após o governo Michel Temer e à administração federal da rodovia pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes.

O ponto é politicamente relevante, mas merece contextualização. A BR-364 atravessa áreas de solo e clima extremamente difíceis, demanda manutenção permanente e passou por sucessivos ciclos de recuperação e destruição. Portanto, não é correto atribuir toda a melhoria a um único governo nem toda a deterioração exclusivamente aos governos seguintes.

Ainda assim, é inegável que a integração rodoviária foi uma das grandes bandeiras dos governos da Frente Popular e permanece como um dos principais desafios estruturais do Acre.

Educação integral e qualidade do ensino

Tião Viana também apresentou a implantação das escolas de tempo integral como uma das principais marcas de sua gestão. Segundo ele, o Acre teria avançado na qualidade do ensino na região amazônica durante o período em que esteve no governo.

Na visão do ex-governador, a educação em tempo integral continua sendo fundamental para reduzir desigualdades, proteger crianças e adolescentes e criar perspectivas para a juventude.

Ao longo da entrevista, o tema apareceu diversas vezes. Para Tião, uma política educacional consistente deve oferecer alimentação, estrutura física adequada, ensino técnico, acesso à universidade e uma formação voltada também para valores como cidadania, fraternidade, meio ambiente e respeito à diversidade.

A defesa é coerente com os problemas apresentados no próprio programa. Contudo, o ex-governador pouco aprofundou as dificuldades de financiamento, manutenção e qualidade pedagógica desse modelo. Escola em tempo integral não pode ser medida apenas pela quantidade de horas que o aluno permanece no prédio. É necessário garantir professores valorizados, conteúdo, infraestrutura e resultados de aprendizagem.

Industrialização e desenvolvimento econômico

Outro eixo central da entrevista foi a industrialização do Acre. Tião afirmou que, ao assumir o governo em 2011, considerava necessário construir uma plataforma econômica capaz de combinar indústria, tecnologia, produção rural e inclusão social.

Citou investimentos e empreendimentos ligados à produção de carne, suínos, aves, ovos, madeira, mandioca e outros produtos. Demonstrou especial otimismo em relação ao desenvolvimento do Alto Acre, prevendo que Brasileia e Epitaciolândia poderão alcançar um crescimento econômico superior ao de outras regiões do Estado nos próximos anos.

Também mencionou projetos futuros defendidos por Virgílio, como uma grande fecularia e uma indústria destinada à produção de ovos para exportação.

A industrialização é uma pauta necessária, sobretudo em um Estado ainda excessivamente dependente do setor público. No entanto, as previsões apresentadas precisam ser tratadas como projeções políticas, não como resultados já assegurados.

A experiência acreana mostra que diversos projetos industriais enfrentaram problemas de gestão, mercado, logística e sustentabilidade financeira. Qualquer nova proposta precisa apresentar estudos de viabilidade, origem dos recursos, mercado consumidor, custos de transporte e impactos ambientais.

Reconhecimento dos limites da Frente Popular

Um dos momentos mais relevantes da conversa ocorreu quando Tião admitiu que os governos da Frente Popular não conseguiram reduzir a concentração de riqueza na proporção desejada.

Segundo ele, o Acre continuou apresentando bolsões de pobreza, deslocamento de famílias da zona rural para áreas urbanas vulneráveis e grande desigualdade na distribuição da renda.

Esse reconhecimento é importante porque impede que o balanço se limite à exaltação de obras. Depois de aproximadamente 20 anos no comando do Estado, a Frente Popular também precisa responder por problemas que permaneceram ou se agravaram durante esse longo período.

Tião responsabilizou a concentração fundiária e econômica pela formação de bairros pobres e pelo crescimento da vulnerabilidade urbana. Defendeu que a mudança depende de industrialização, educação integral, formação técnica, acesso à tecnologia e distribuição de renda.

A análise, porém, poderia ter ido além. Faltou explicar por que, mesmo depois de tantos anos de governo, políticas de desenvolvimento e inclusão não foram suficientes para alterar estruturalmente esses indicadores.

Críticas aos governos posteriores

Tião fez críticas severas ao grupo político que assumiu o Estado depois de 2018. Classificou o projeto como marcado pela vaidade e pela prevalência de interesses individuais sobre os interesses coletivos.

Apontou deterioração na saúde e na educação, falta de médicos no interior, redução da capacidade hospitalar e dificuldades no atendimento de pacientes que precisam se deslocar entre municípios.

Citou a situação de Feijó, onde, segundo ele, havia uma equipe médica mais estruturada no passado e atualmente muitas gestantes precisam viajar para Tarauacá ou Cruzeiro do Sul. Também afirmou que setores da Fundação Hospitalar enfrentam falta de medicamentos, redução no funcionamento de salas cirúrgicas e problemas básicos de manutenção.

Essas acusações são graves e precisam ser examinadas a partir de dados oficiais e do posicionamento do governo estadual. Na entrevista, foram apresentadas como avaliação política do ex-governador, sem contraponto de representantes da atual administração.

Uma matéria crítica precisa deixar claro: a fala de Tião é uma denúncia e uma interpretação política, não uma auditoria independente da situação da saúde.

Pandemia e responsabilidade do governo Bolsonaro

Como médico, professor e pesquisador, Tião Viana fez uma das partes mais contundentes da entrevista ao comentar a pandemia de Covid-19.

Responsabilizou o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo negacionismo, pelas críticas às vacinas e pelo comportamento diante das mortes e do sofrimento de pacientes.

Tião afirmou ter atendido milhares de pessoas durante a pandemia e relatou a sobrecarga vivida pelos profissionais de saúde. Disse que chegou a acompanhar dezenas de pacientes em estado grave ao mesmo tempo e descreveu jornadas que avançavam pela madrugada.

Também afirmou que o número real de mortes por Covid-19 no Brasil poderia ser muito superior ao oficialmente registrado, utilizando uma estimativa baseada em subnotificação.

Esse ponto exige cautela. A existência de subnotificação é reconhecida em estudos epidemiológicos, mas o número exato apresentado por Tião não foi acompanhado, na entrevista, de uma referência metodológica ou pesquisa específica. Portanto, deve ser compreendido como uma estimativa defendida por ele, e não como um dado definitivamente comprovado no programa.

Vacinas e combate ao negacionismo

Tião classificou a vacina como uma das maiores invenções da humanidade e alertou para a queda da cobertura vacinal entre crianças, adultos e idosos.

Lembrou que muitas pessoas recusaram a imunização contra a Covid-19 influenciadas por informações falsas e afirmou ter acompanhado pacientes que se arrependeram quando já estavam em estado grave.

Também chamou atenção para outras vacinas importantes, como as destinadas à prevenção do HPV, pneumonia, tétano, herpes-zóster e infecções respiratórias.

A defesa da vacinação foi um dos trechos mais sólidos da entrevista, especialmente por partir de alguém com formação médica. O ex-governador vinculou a desinformação ao enfraquecimento da confiança na ciência e ao retorno de doenças anteriormente controladas.

Religião, política e intolerância

Questionado por Raimundo Accioly sobre o uso político da religião, Tião criticou lideranças que, segundo ele, utilizam o nome do cristianismo para disseminar ódio, intolerância, violência e enriquecimento ilícito.

Defendeu que a mensagem cristã está baseada no amor, no perdão, na fraternidade e no cuidado com crianças, idosos e pessoas vulneráveis. Também afirmou que instituições religiosas podem desempenhar um papel positivo quando atuam na solidariedade e no atendimento aos mais pobres.

A crítica foi direcionada ao uso instrumental da fé na política. Contudo, o ex-governador fez generalizações amplas ao relacionar setores religiosos a crimes, narcotráfico e enriquecimento. Um debate responsável deve distinguir instituições, lideranças e denominações, evitando tratar todas as manifestações religiosas como parte de um mesmo fenômeno.

Feminicídio e discurso político

Em outro momento, Tião associou discursos conservadores e misóginos aos altos índices de violência contra a mulher no Acre.

Afirmou que o Estado enfrenta uma situação grave de feminicídio e acusou setores da direita de sustentarem ideias que desvalorizam a participação política e a autonomia das mulheres.

A relação entre cultura machista, discurso público e violência merece discussão séria. Entretanto, a afirmação de que um campo político específico seria responsável pelo feminicídio precisa ser tratada com rigor. A violência contra a mulher é um fenômeno complexo, relacionado a desigualdade, impunidade, dependência econômica, falhas na proteção pública e padrões culturais que atravessam diferentes grupos sociais.

Cenário eleitoral no Acre

Ao analisar a próxima eleição estadual, Tião Viana afirmou que a direita acreana apresenta várias candidaturas, mas que todas representam, em essência, um mesmo projeto político.

Na avaliação dele, esse campo foi fortalecido pela Operação Lava Jato, pelas redes sociais, pela disseminação de notícias falsas e pelo desgaste dos projetos progressistas.

Do outro lado, apontou nomes como Thor Dantas, Jorge Viana e Virgílio Viana como representantes de uma alternativa baseada em democracia, participação social, saúde, educação e desenvolvimento.

O ex-governador acusou setores da política local de enxergarem o mandato como instrumento de enriquecimento pessoal e manutenção de estruturas de poder. A crítica é forte, mas novamente foi feita de forma genérica, sem apresentação de casos específicos ou provas durante a entrevista.

O debate político ganha qualidade quando denúncias são acompanhadas de fatos, documentos e identificação clara das condutas questionadas. Sem isso, existe o risco de o discurso reproduzir exatamente a polarização e a simplificação que o próprio entrevistado afirmou combater.

Saúde para Tarauacá e Feijó

No encerramento, Tião afirmou que, caso Virgílio seja eleito, haverá articulação para garantir equipamentos de tomografia computadorizada para Tarauacá e Feijó, além de mais médicos, medicamentos e redução da burocracia no Tratamento Fora de Domicílio.

A promessa dialoga diretamente com uma das maiores dificuldades enfrentadas pela população do interior. Porém, não foram detalhados os custos, fontes de recursos, responsabilidades administrativas ou prazos necessários para a instalação e manutenção desses serviços.

Em saúde pública, não basta adquirir equipamentos. É preciso garantir profissionais, manutenção, insumos, energia, estrutura hospitalar, regulação e funcionamento contínuo. O compromisso apresentado precisará ser transformado em proposta técnica e orçamentária para ser avaliado com seriedade.

Um discurso de legado, crítica e retorno ao debate público

A entrevista mostrou um Tião Viana novamente disposto a ocupar espaço no debate político do Acre. Depois de anos afastado das manifestações públicas, ele retornou defendendo o legado da Frente Popular, apoiando a pré-candidatura do filho e criticando duramente os grupos que assumiram o governo estadual após 2018.

Sua fala combina realizações verificáveis, interpretações políticas, autocrítica limitada e acusações que exigem comprovação e contraponto.

Tião reconheceu que a Frente Popular não conseguiu resolver completamente a desigualdade, mas atribuiu parte significativa dos problemas atuais aos governos seguintes. Defendeu educação integral, industrialização, ciência, vacinação, proteção social e participação democrática como pilares para o futuro do Acre.

O principal desafio para o ex-governador e para o grupo político que representa será demonstrar que o retorno ao debate não pretende apenas recuperar o passado. Será necessário apresentar respostas para os erros cometidos durante duas décadas de poder, detalhar propostas viáveis para os problemas atuais e convencer a população de que a renovação defendida não será apenas uma mudança de geração dentro das mesmas famílias e estruturas partidárias.

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