La Nación+, que apoia Milei, coloca repórter para comer carne de burro


Alta no preço da carne bovina leva argentinos a buscarem alternativas mais baratas, como porco e frango e agora até carne de burro; veja o vídeo

Repórter argentina come carne de burro/Foto: Reprodução de Vídeo

Oaumento acelerado dos preços da carne bovina na Argentina, em meio à crise econômica sob o governo de Javier Milei, tem provocado mudanças significativas nos hábitos de consumo da população. Diante da escalada dos valores, consumidores passaram a substituir o produto por opções mais acessíveis, como frango, carne suína e, mais recentemente, até carne de burro.

Para incentivar a medida, o canal argentino La Nación+, que apoia Milei, colocou uma repórter para comer carne de burro ao vivo em horário nobre. Ela afirma: “o cheiro já me conquista”. Ao provar, diz que é “muito bom” e que “se parece com carne de vaca”.

Veja abaixo:

PERO QUÉ ES ESTOOOOO El programa de Trebucq directamente militando la carne de burro en horario central. ¿Cómo llegamos a esto? Pensar que nos reíamos de los macritips porque decía que nos abriguemos para no prender la estufa. Esto ya es otra liga. El descenso absoluto.

Carne de vaca no país do churrasco virou item de luxo

De acordo com reportagem do Página/12, a carne bovina — tradicional na dieta argentina — passou a ser considerada um item de luxo. Nos últimos meses, os preços registraram aumentos expressivos, com alta superior a 10% em apenas um mês. Alguns cortes chegaram a ultrapassar 25 mil pesos por quilo, o que levou muitas famílias a reduzirem drasticamente o consumo.

Inicialmente, a substituição ocorreu por proteínas mais baratas, como frango e porco. No entanto, com o encarecimento também desses produtos, consumidores passaram a recorrer a alternativas ainda mais econômicas, como ovos.
Inflação persistente

O cenário está inserido em um contexto de inflação persistente. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) subiu 3,4% em março, acima dos 2,9% registrados em fevereiro, atingindo o maior nível em um ano. No acumulado de 12 meses, a inflação chegou a 32,6%.

Desde que assumiu a presidência, em dezembro de 2023, Milei implementou um amplo pacote de reformas econômicas. Entre as medidas estão a paralisação de obras federais, a suspensão de repasses às províncias e a retirada de subsídios em áreas como energia, transporte e serviços essenciais — fatores que contribuíram para a elevação generalizada dos preços.

Nesse contexto, surgiu a proposta de comercialização da carne de burro, vendida por cerca de 7.500 pesos o quilo. Em Buenos Aires, o açougueiro Gonzalo Moreira relatou os impactos da crise no setor. “Estamos enfrentando uma recessão importante. Não conheço comerciante que não esteja passando por dificuldades. O setor está sendo muito pressionado, mesmo sem grandes variações de preço. Tudo é pago com cartão, empurrado para frente”, afirmou à Rádio 750.
Mudança no consumo

Ele também destacou mudanças no comportamento dos consumidores: “E a comida também começa a ser paga em parcelas. A gente vai reorganizando as vendas. As pessoas deixaram a carne bovina, que caiu cerca de 20% nas compras, e passaram para o porco ou o frango. Um quilo de carne bovina custa entre 15 mil e 18 mil pesos. Já o porco fica entre 8 mil e 9 mil pesos”.

Sobre a nova alternativa, Moreira reconheceu o papel da carne de burro diante da necessidade, mas demonstrou resistência cultural. “Se for para enfrentar a necessidade diária, não digo que seja o melhor… Mas há pessoas que ao menos podem ter acesso a esse tipo de alimento”, disse. “Não estou de acordo. Acho que não quero comer um burro. Estamos acostumados a comer vaca. Mas, se tiver que levar isso para outro lado… Ninguém gosta de comer coelho, mas se come há toda a vida”.

A iniciativa de comercialização partiu do produtor rural Julio Cittadini, responsável pelo projeto “Burros Patagones”. Segundo ele, a procura surpreendeu. “O que colocamos à venda acabou em um dia. Em um dia e meio não restou nada”, relatou.

O empreendimento possui autorização do Ministério da Produção da província de Chubut e segue normas sanitárias, configurando-se como uma atividade formal dentro do setor agropecuário.
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