Após o ocorrido, os restos mortais da mulher foram novamente sepultados no cemitério da comunidade, sob supervisão policial (Foto: Reprodução)
247 - Um episódio chocante e ao mesmo tempo revelador das dificuldades burocráticas em regiões pobres da Índia ganhou repercussão internacional nos últimos dias. Um homem desenterrou o corpo da própria irmã e levou seus restos mortais até uma agência bancária na tentativa de comprovar a morte e acessar valores deixados por ela. O caso foi inicialmente divulgado por veículos locais e confirmado por reportagens do jornal Telegraph India e do portal India Today.
As imagens que circularam nas redes sociais mostram o homem caminhando por uma estrada de terra, descalço e com o corpo parcialmente descoberto, carregando nos ombros um esqueleto envolto em tecido. O vídeo viralizou rapidamente, levantando dúvidas sobre sua autenticidade. No entanto, uma análise feita pela plataforma Hive Moderation indicou apenas 1,3% de probabilidade de manipulação por inteligência artificial, reforçando que o conteúdo é provavelmente real.
O protagonista da cena é Jeetu Munda, de 50 anos, morador da vila de Dianali, no distrito rural de Keonjhar, no estado de Odisha, leste da Índia. Ele transportava os restos mortais da irmã mais velha, Kalara Munda, de 56 anos, que havia morrido cerca de dois meses antes. Segundo a imprensa local, o dinheiro que ele tentava sacar — cerca de 20 mil rúpias indianas, equivalente a pouco mais de mil reais — era fruto da venda de gado.
Sem outros herdeiros legais reconhecidos, Jeetu buscava acesso ao valor depositado na conta da irmã. Ele relatou que tentou diversas vezes resolver a situação junto ao banco, mas não conseguiu apresentar a documentação exigida. “Embora eu lhes dissesse que ela havia falecido, eles não me deram ouvidos”, afirmou ao India Today.
De acordo com autoridades locais, o caso expõe uma combinação de falhas de comunicação e desconhecimento dos procedimentos legais. O inspetor Kiran Prasad Sahu, responsável pela delegacia de Patana, explicou que o homem não compreendia as exigências formais para o saque de valores de uma pessoa falecida, enquanto funcionários do banco também não conseguiram orientá-lo adequadamente sobre o processo de sucessão bancária.
Após a repercussão, o Indian Overseas Bank, instituição pública que patrocina o Odisha Grameen Bank, onde o caso ocorreu, divulgou um comunicado oficial negando irregularidades no atendimento. “Contrariando certos relatos da mídia, os funcionários do banco não exigiram a presença física de um cliente falecido para saque”, afirmou a instituição.
O banco explicou que a legislação indiana exige documentação formal, especialmente a certidão de óbito, para liberar valores de contas de pessoas falecidas. Segundo a instituição, Jeetu Munda compareceu inicialmente à agência sem os documentos necessários. Posteriormente, retornou “em estado de embriaguez” e levou os restos mortais até a frente do banco, alegando que se tratava de sua irmã.“O indivíduo (...) retornou com restos humanos, supostamente exumados após terem sido enterrados alguns dias antes, colocando-os em frente à agência e alegando que se tratava de sua irmã”, informou o banco no comunicado.
A instituição afirmou ainda que sua conduta teve como objetivo proteger os recursos da falecida e garantir que o saque seja feito de acordo com as normas legais. O pagamento, segundo o banco, será priorizado assim que a documentação necessária for apresentada.
O episódio também evidencia desafios estruturais enfrentados por populações de regiões rurais da Índia, onde o acesso a registros civis e documentos oficiais ainda é limitado. Em muitos casos, processos como herança e liberação de valores bancários se tornam longos e complexos, especialmente quando não há beneficiários formalmente registrados.
No caso de Kalara Munda, relatos indicam que o beneficiário originalmente vinculado à conta também havia falecido, o que deixou Jeetu como possível sucessor. Diante da repercussão, autoridades locais prometeram auxiliar na regularização dos documentos necessários para viabilizar o saque.
Após o ocorrido, os restos mortais da mulher foram novamente sepultados no cemitério da comunidade, sob supervisão policial, encerrando um episódio que mistura desinformação, burocracia e vulnerabilidade social.