A área técnica do governo fechou a proposta do
programa de redução da jornada de trabalho e de salários, que deve sair até o
fim deste mês como medida para controlar o aumento do desemprego na indústria.
Pelo desenho proposto, ao qual o jornal O Estado de S. Paulo teve acesso, a
jornada seria reduzida em 30%, mesmo porcentual que as empresas cortariam do
salário. O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), porém, pagaria 15% do salário
para o empregado.
Para os empregadores, a redução nos custos seria da
ordem de 30%. Para os trabalhadores, o salário seria cortado em 15% porque
contariam com o complemento do FAT, fundo responsável pelos pagamentos do seguro-desemprego
e do abono salarial.
A proposta, batizada de Plano de Proteção ao
Emprego (PPE), é vista com simpatia pelo Planalto e, principalmente, pela
equipe econômica. As discussões foram comandadas pela Casa Civil, com apoio
técnico do Ministério do Trabalho. Defensores da proposta consideram essencial
colocá-la em prática para impedir o aumento do desemprego – a taxa de abril foi
a maior em quatro anos.
Grandes empresas ainda fazem lobby para que o
governo aumente o porcentual de redução da jornada e, consequentemente, do
salário em até 50% (o FAT teria de bancar 25%).
Alemanha
O início do debate se deu há três anos, quando o
Sindicato dos Metalúrgicos do ABC fez a proposta. Um grupo formado por
representantes do governo, de sindicalistas e de patrões foi à Alemanha para se
informar.
Na Alemanha, boa parte da indústria e dos
sindicatos concorda em reduzir a jornada de trabalho e os salários, em caráter
excepcional e com prazo de validade, para permitir que a economia atravesse a
crise sem falências ou demissões. O instrumento foi muito usado para combater
os efeitos da crise econômica de 2008, mas já tinha sido usado nos anos 60 e
80.
A redução da jornada e do salário precisa ser
aprovada em assembleias com os sindicatos para ser implementada. É o que diz a
Constituição, que impede a redução de direitos trabalhistas, a não ser por
acordos desse tipo. Ficou decidido que o limite por trabalhador para a
contrapartida do FAT será de R$ 1.385,91 (parcela máxima que o fundo paga de
seguro-desemprego). Na outra ponta, a redução não pode fazer com que o
empregado ganhe menos que um salário mínimo (R$ 788).
Trabalhadores
afastados
Há um consenso entre patrões, empregados e governo
sobre a importância da medida para conter o aumento das demissões,
principalmente na indústria automotiva. Atualmente, cerca de 25 mil
trabalhadores estão afastados por lay-off (suspensão temporária dos contratos
de trabalho), férias coletivas ou licenças remuneradas, como consequência da
queda na produção de veículos. A indústria automobilística é responsável pela geração
de 1,5 milhão de empregos diretos e indiretos.
No lay-off, o contrato de trabalho é suspenso por
cinco meses, que podem ser prorrogados. O empregado recebe o seguro-desemprego
por cinco meses. No PPE, como o trabalhador continua empregado, há continuidade
na arrecadação de contribuições trabalhistas e previdenciárias e impostos, que
são pagos pelas empresas e pelos trabalhadores.
Para o governo, é mais vantajoso completar uma
parte dos salários dos trabalhadores e continuar arrecadando impostos do que
aumentar os gastos com o seguro-desemprego.
Pressão no Congresso
A flexibilização das leis trabalhistas deve ser
proposta por meio de Medida Provisória (MP), que teria efeito imediato. O
presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores
(Anfavea), Luiz Moan, afirma que as montadoras e os sindicatos vão pressionar o
Congresso para que a MP seja aprovada e a mudança passe a valer
definitivamente.
“É um programa preventivo para evitar o desemprego,
que fere a dignidade do trabalhador”, diz Paulo Cayres, presidente da
Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT. “Deve ser uma espécie de socorro
dos bombeiros, usado para apagar incêndios. Servir apenas para momentos como o
de agora: a indústria está pegando fogo.” A confederação reúne 85 sindicatos em
todo o País. Os sindicatos representam quase 1 milhão de trabalhadores.
O presidente da Força Sindical, Miguel Torres,
apoia a medida, embora tenha sugerido que a complementação do salário tenha
como origem os recursos do adicional de 10% da multa do FGTS, pago pelas
empresas em demissões sem justa causa. De acordo com ele, os cerca de R$ 3
bilhões arrecadados por ano poderiam ser usados para constituir esse fundo que
seria acionado em momentos de crise sistêmica.
Ricardo Patah, presidente da UGT, diz que a
terceira maior central sindical do País considera a proposta pertinente para
evitar que demissões em massa da indústria automobilística causem impacto ao
comércio e aos serviços – atividades de 70% dos sindicatos filiados à central.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Site Contábil